Açúcar e Cancro

Açúcar e Cancro

Por Inês Ruivo Monteiro (Nutricionista (CP:3132N))

Antes de mais é importante esclarecer: o que é o açúcar?

Açúcar é um termo genérico para hidratos de carbono de cadeia curta, os monossacarídeos, que são os hidratos de carbono mais simples como a glicose e a frutose, e os dissacarídeos que são compostos pela junção de dois monossacarídeos, como a sacarose ou a lactose (presente no leite). Existem também os hidratos de carbono mais complexos, os polissacarídeos, compostos pela junção de vários monossacarídeos, entre eles o amido que é uma fonte primordial de energia no nosso organismo.

O que é importante reter, é que os diferentes tipos de hidratos de carbono têm diferentes efeitos no nosso organismo. A glicose é a principal fonte de energia das nossas células, ela é vital para a nossa sobrevivência, no entanto, quando consumida em excesso pode ser causa de várias doenças crónicas como a obesidade e a diabetes. Os hidratos de carbono mais simples, fazem subir rapidamente os níveis de glicose sanguínea, e o organismo tem que produzir insulina para “retirar” essa glicose da corrente sanguínea e transportá-la até às células, onde esta é necessária para a produção de energia. Os hidratos de carbono mais complexos, têm um efeito mais lento na subida de glicose sanguínea, sendo mais fácil para o organismo metabolizar essa glicose. A este fenómeno chama-se Índice Glicémico. Os hidratos de carbono mais complexos tendem a ter um índice glicémico mais baixo, valores de glicose sanguínea mais baixos e consequentemente necessitam de produzir menos insulina para transportar a glicose até às células. Os hidratos de carbono simples, ou os “açúcares simples” causam picos de glicose no sangue, obrigando o organismo a produzir níveis elevados de insulina1.

Qual a relação entre o açúcar e o cancro?

Em 1931, o 1º prémio Nobel em Medicina Otto Warburg, descobriu pela primeira vez que as células cancerígenas têm um metabolismo energético diferente das células saudáveis. O autor descobriu que as células neoplásicas são altamente dependentes da glicose para sobreviver, mesmo em condições adversas2.

Desde então, vários autores têm-se dedicado a estudar esta relação. Níveis elevados de glicose no sangue, fazem aumentar os níveis de produção de insulina e de uma outra molécula, a IGF (Insulin-like growth factor). Os resultados mostram que estas duas moléculas estão associadas ao crescimento celular, ao aumento dos níveis inflamatórios do nosso organismo, e estudos mais recentes mostram também uma associação entre os níveis de insulina, IGF e glicose sanguíneos e a capacidade de invasão, metastização e resistência aos tratamentos das células cancerígenas 3-7.

Açúcar e prevenção de cancro

Existem inúmeros estudos que tentam estabelecer uma relação entre o consumo de açúcar e o risco de desenvolver cancro. Os resultados são pouco consistentes, por duas principais razões. Primeiro porque existem vários tipos de “açúcares” e relações a serem estudadas, desde açúcares de adição, a hidratos de carbono totais, a bebidas açucaradas, índice glicémico, a sacarose, etc., e por outro lado porque é muito difícil quantificar o real consumo de açúcar na nossa dieta. Nas últimas décadas o consumo de açúcar refinado aumentou de 5kg/pessoa/ano em 1830 para 70 kg/pessoa/ano em 2000 8. O açúcar é hoje em dia um ingrediente quase omnipresente na nossa dieta ocidental. Ele está presente em praticamente tudo o que consumimos, desde bebidas, produtos lácteos, bolachas, cereais de pequeno-almoço, papas lácteas, molhos, refeições pré-confeccionadas, fast-food, etc. Por outro lado, mesmo os hidratos de carbono mais complexos como o arroz, o trigo, centeio, etc., são consumidos na sua forma mais refinada, o que faz com que o seu índice glicémico seja mais elevado, do que o equivalente integral. Assim, tentar estabelecer uma relação entre o consumo de açúcar por parte das populações e o risco de cancro é uma tarefa difícil, principalmente pela grande dificuldade em quantificar o seu real consumo. Os resultados vão desde estudos que não conseguem comprovar relação entre o consumo de açúcar o risco de cancro9-11 a estudos que mostram que dietas com elevado índice glicémico ou o consumo de bebidas açucaradas podem aumentar até 2 vezes ou mais o risco de desenvolver alguns tipos de cancro12-15.

No entanto, os resultados são bem mais consistentes quando se estuda a relação entre os níveis de glicose, de insulina e de IGF sanguíneos e o risco de cancro. Estes mostram que pessoas com níveis cronicamente elevados destas 3 moléculas no sangue, têm um risco superior de vir a desenvolver alguns tipos de cancro. Existem também vários estudos que comprovam que pacientes com diabetes mellitus mal controlada, obesos, ou pacientes com síndrome metabólica tendem a ter um risco superior de desenvolver cancro comparativamente à população saudável16-21.

Consumo de açúcar durante o tratamento de cancro

Estudos em animais, mostram que dietas com baixo teor de açúcar e baixo índice glicémico, reduzem o crescimento tumoral, o número de metástases e o volume tumoral, melhoram a resposta aos tratamentos anti-neoplásicos e aumentam a sobrevivência. Claro que estes estudos não são directamente transponíveis para os humanos. Atualmente existem poucos estudos em humanos, que possam comprovar o efeito que dietas com baixo teor em açúcar e índice glicémico baixo, possam ter no desenvolvimento da neoplasia e na resposta aos tratamentos22. No entanto, existem vários ensaios clínicos a decorrer. É uma questão de tempo para termos resultados mais concretos.

Conclusão

A Organização Mundial de Saúde (OMS), considerou o açúcar como o “veneno” do séc. XXI, e recomenda que o seu consumo não ultrapasse os 10% do total de calorias por dia, sugerindo ainda que o ideal seria não ultrapassar os 5%. Então, se considerarmos uma dieta de 2000kcal/dia, o ideal seria não ultrapassar as 25 g de açúcar dia23. No entanto, apenas 1 lata de refrigerante pode conter até 35g de açúcar, ou uma garrafa de leite achocolatado (250ml) pode conter até 25g de açúcar. Com estes exemplos, percebemos o quão fácil é ultrapassar as recomendações.

Sem ser necessário esperar pelos resultados dos próximos ensaios clínicos, cada um de nós tem em mãos uma poderosa ferramenta para melhorar a qualidade de vida e a saúde em geral e sem efeitos secundários: Seguir uma alimentação mais saudável, com reduzido teor de açúcares simples e com baixo índice glicémico. Basta seguir recomendações simples como limitar o consumo de açúcares refinados e de adição – Reduzir o consumo de produtos de pastelaria, e deixar de colocar açúcar nos alimentos e substituí-lo por adoçantes naturais como estévia e a geleia de agave. Limitar o consumo de alimentos processados, como bolachas e biscoitos, produtos lácteos açucarados, cereais de pequeno-almoço açucarados, etc., fast-food, refeições pré-confeccionadas, e refrigerantes, assim como diminuir o consumo de alimentos com elevado índice glicémico como os cereais e farinhas refinadas, preferindo os cereais mais integrais.

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Inês Ruivo Monteiro é nutricionista com especialização em oncologia clínica e terapeuta Ayurvédica.